Bonecas Mágicas Ancestrais – As descendentes das Vênus Pré-Históricas

Em diversas parte do mundo foram conservadas, pelas mulheres, tradições orais que conectam as bonecas à terra, à fertilidade, à proteção e a uma transmissão do conhecimento intuitivo de uma mesma linhagem ( sugerida a leitura do post: https://marcelenovakphotography.photo.blog/2020/01/23/boneca-magica-ancestral/ ).

E o que isso tem a ver com as Vênus Pré-históricas? Bem, muita coisa!

Marija Gimbutas, arqueóloga Lituana que viveu e trabalhou nos Estados Unidos, estudou por muitos anos as inscrições rupestres, estatuetas e todo o material lítico deixado pelos povos da Pré-história Europeia. Ela afirma em seu trabalho que no Período Paleolítico foram encontradas cerca de 1.000 gravuras, relevos e esculturas femininas, que datam de aproximadamente 33.000 a.C. a 9.000 a.C. E que modelar o corpo feminino foi uma atividade que durou até o Neolítico com cerca de 30.000 peças datadas aproximadamente de 6.500 a.C. a 3.500 a.C.. (sugerida a leitura do post: https://wordpress.com/block-editor/post/marcelenovakphotography.photo.blog/5 ).

Diferente dos primeiros estudos arqueológicos, que consideravam as Vênus como monstruosas, ideais estéticos ou eróticos daquelas sociedades, Gimbutas defende que todo o material deixado por esses povos “são inseparáveis do mundo mítico e de que as “Vênus” são representações de vários aspectos da Deusa Criadora ou retratações de participantes em rituais dedicados aos vários aspectos dela e reencenado por meio da estatueta” (CAMPBELL, EISLER, GIMBUTAS, MUSÈ, 1997, pg. 39).

Artesanato peruano

As representações mais antigas do princípio criador feminino são vulvas, esculpidas em forma de triângulo, do período aurignaciano. De acordo com a arqueóloga “a chave para esse simbolismo pode ser percebida em associação da vulva com plantas e sementes” (CAMPBELL, EISLER, GIMBUTAS, MUSÈ, 1997, pg. 41). Outra representações interessantes são estatuetas com a vulva a mostra e pernas erguidas em postura de dar à luz.

Muiraquitã

Assim como representação de sapos/rãs representando a vulva (útero) primordial e fazendo uma associação direta à Deusa e seu poder de geração de vida. E aqui eu faço uma relação com os misteriosos amuletos encontrados na amazônia brasileira entalhados em forma de animais, principalmente sapos e rãs, chamados de Muiraquitãs. “Segundo as lendas amazônicas, a Icamiabas, ou seja, as guerreiras sem marido, retiravam a pedra bruta de um lago sagrado, o Jaciuaruá, o Espelho da Lua, sendo os pequenos ídolos talhados em noites de lua cheia (…) transformando-os em amuletos de grande valor, principalmente medicinal, razão porque seus possuidores sempre relutaram em vende-los” (ABREU, 1987, pg. 48).

Muitas estatuetas foram esculpidas ou entalhadas com formas antropomórficas, “mas, frequentemente, como uma ave aquática, uma serpente, uma coruja, um sapo, um urso (e provavelmente como um bisão fêmea no Paleolítico Superior)” (CAMPBELL, EISLER, GIMBUTAS, MUSÈ, 1997, pg. 54).

Vênus de Lespurgue

Nas estatuetas das Vênus algumas características são marcantes:

– Seios, nádegas e vaginas bem marcadas e ventre gravídico. “Aquelas partes do corpo que, aos nossos olhos, parecem exageradas ou grotescas são as suas partes mais importantes, mágicas e sagradas; fonte visível e produtiva da continuação cíclica da vida” (CAMPBELL, EISLER, GIMBUTAS, MUSÈ, 1997, pg. 54). Para Gimbutas a característica de gerar e manter a vida não estava apenas no ventre ou na vulva. Para ela os seios e nádegas protuberantes formam ovos duplos e estão associados à ideia de sementes, de germinação, nutrição e “reiteram repetidamente o mito cósmico da Deusa como uma ave aquática carregando um ovo ou um ovo duplo em seu corpo” (CAMPBELL, EISLER, GIMBUTAS, MUSÈ, 1997, pg. 48).

– É muito comum as Vênus Paleolíticas estarem sem o rosto, apenas a cabeça moldada. Parece que a identidade dessas deidades não era importante, e por isso não possuíam olhos, nariz, boca, traços ou  símbolos de poder, e essa caracterização acontece a partir do Neolítico.

– Os braços em muitas estatuetas estão acima dos seios, oferecendo-os a alguém. “Assim, os seios celestiais tornam-se um ícone da fonte de alimentação (leite ou chuva) ou manutenção da vida em geral” (CAMPBELL, EISLER, GIMBUTAS, MUSÈ, 1997, pg. 49).

– As pernas, quando tem, são apenas para sustentar as imagens.

Vênus Líbia encontra junto à Tin-Hinam

No norte da África, na região do Saara, existe a lenda de que há muitos anos chegou a região da Abalessa uma princesa branca com seus servidores, escravos e guardas. Tin-Hinam, como é chamada, é considerada sagrada para os tuaregues (povo da região) e “os nobres tuaregues, principalmente aqueles que vieram da região de Hoggar, consideram-se descendentes diretos das filhas da rainha branca” (ABREU, pg. 128). Em 1926 foi encontrado o local onde a Rainha Tin-Hinam foi enterrada e junto com ela, além de diversas joias, pedrarias, …, estava a estatueta de uma Vênus Pré-histórica, conhecida como Vênus da Líbia. Apesar de tantos estudiosos terem dedicado a vida em decifrar seus enigmas muitos mistérios envolvem essas estatuetas, alguns deles difíceis de explicar.

Muito ligadas ao poder de geração e manutenção da vida, da fertilidade e nutrição da Deusa e da mulher, essas estatuetas são na verdade resultado de uma tradição oral que preservava o entendimento de mundo que aqueles povos tinham e sua relação com a terra, o cosmos, a natureza, a magia e a Mãe. E nós, ao fazermos nossas bonecas dentro da tradição oral conservada, estamos a reiterar dentro de nós o nosso poder de criação e a nossa conexão com a ancestralidade, com a natureza e a magia natural que habita em nossa alma.

Referência Bibliográfica:

ABREU, Aurélio M.G. Culturas Indígenas do Brasil. 1 ed. São Paulo: Traco Editora, 1987.

ABREU, Aurélio M.G. Reinos Desaparecidos, Povos Condenados. 1 ed. São Paulo: Hemus.

CAMPBELL, Joseph, EISLER, Riane, GIMBUTAS, Marija, MUSÈ, Charles. Todos os nomes da Deusa. 1 ed. Rio de Janeiro: 1997: Editora Rosa dos Ventos.

Sanches, Jorge Garcia. Regreso a la tumba de Tin Hinan: nuevas fuentes en torno a las excavaciones de Byron Khun de Prorok en Abalessa (Ahaggar, Argelia). 05/10/2016. http://dx.doi.org/10.15366/cupauam2016.42.007. CuPAUAM 42, 2016, pp. 187-208. ISSN 0211-1608, ISSN Digital: 2530-3589

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