
No conto Russo Vasalisa, a protagonista da história perde a sua mãe ainda menina. Porém, antes da sua partida para o Outro Mundo, ela presenteia a sua filha com uma boneca. Ao entregar a boneca ela diz à menina para consultá-la sempre que precisar de ajuda, pois a bonequinha saberá o que fazer. E ainda fala que essa é a sua promessa de mãe e a benção que está lhe dando. A boneca, a partir desse momento, se transforma no elo que conecta Vasalisa à sabedoria ancestral intuitiva de todas as mulheres de sua linhagem.
O conto traz, de forma muito linda, o maior legado que uma mãe pode deixar a um filho, a confiança na sua própria intuição. E por que essa benção vem em forma de boneca? Porque bonecas são feitas há milênios como amuleto transmissor de benção, proteção e prosperidade. Mulheres dos quatro cantos do planeta fizeram e fazem bonecas para garantir a fertilidade da terra, proteger, abençoar, garantir uma boa gestação ou um bom parto, abençoar o novo lar ou uma união.

É uma tradição oral e têxtil e ainda preservada em alguns lugares. As eslavas, por exemplo, conservam a arte de fazer a boneca Motanka há mais de 5.000 anos. Elas presenteavam às filhas, por ocasião do seu casamento, com bonecas feitas com pedaços de tecidos da roupa da própria mãe, para que a filha levasse ao novo lar a benção da sua ancestralidade. Podemos ver essa tradição muita viva na Russia, na Ucraína e demais países eslavos, inclusive no Brasil. A portuguesa Marafona é feita ainda hoje como talismã de proteção contra as tempestades, para garantir a fertilidade e para proteção do novo casal. A bonequinha Guatemalteca Quitapesares escuta a noite, antes de dormir, todas as preocupações dos seus donos, para que os mesmos tenham uma boa noite de sono. Podemos ver a arte de fazer bonecas em diversos lugares: no Peru, na Irlanda, no Japão, na África. No Brasil temos uma linda mistura de tradições: bonecas de tecido ou de palha são feitas pelos descendentes dos imigrantes europeus. Bonequinhas de sementes, penas e palha feita pelas tribos indígenas. E temos também a Abayomi, tradição criada pelas mulheres enquanto estavam nos navios negreiros rumo ao Brasil. Quando as mães percebiam que seus filhos, ao chegarem ao Brasil, seriam separados delas, elas faziam bonequinhas trançadas com restos de tecidos de suas roupas, para que seus filhos carregassem a benção materna e o elo de ligação com sua linhagem, independente de onde fossem.
Elas são feitas a partir de materiais naturais como o algodão, o linho, a lã, as ervas, as pedras, a palha, as sementes, as ervas, a argila. Os tecidos são trançados e amarrados com três nós. Sem costura, para não danificar o corpo de quem a recebe. E sem rosto para não atrair para o corpo da boneca uma alma errante.

“Acredita-se que as bonecas sejam impregnadas de vida por quem as criou. (…) Por outro lado, existe nela um pequeno fragmento da alma que possui todo o conhecimento do Self maior da alma” (ESTÉS, 1992, pg. 106-107 ).
No conto a Vasalisa passa por diversas dificuldades, mas guiada pela sua bonequinha ela consegue vencer os desafios protegida e ilesa. E termina sua jornada fortalecida, vitoriosa e conectada com a sabedoria das mulheres de sua família.
ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com o lobos. Mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem. 1 edição. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
Parabéns Marcele! Já te admirava antes, agora ainda mais! Você nos inspira🙏
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Muito obrigada Ana!! Um super beijo!!
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Gratidão!
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